TENHO QUE FAZER UMA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA MESMO APÓS FAZER UM EXAME DE IMAGEM CEREBRAL?
Sim, pois o estudo da função cerebral na saúde ou doença requer a integração de dados comportamentais e neurofisiológicos. Os exames de imagens fornecem os dados neurofisiológicos, mas não os comportamentais. Por esse motivo, a necessidade da avaliação neuropsicológica (ROALF; GUR, 2017). .
Clinicamente, o potencial é incomensurável para que a Imagem de Ressonância Magnética funcional - fMRI se torne parte integrante da prática clínica da neuropsicologia. Atualmente, a fMRI clínica tem duas aplicações principais(ROALF; GUR, 2017):
- a geração de biomarcadores não invasivos da função cerebral para a classificação e monitoramento de pacientes neurológicos e psiquiátricos, e
- planejamento pré-cirúrgico em cirurgias que podem afetar áreas motoras, de linguagem e de memória.
Outra contribuição entre esses dois exames é a incorporação da análise de rede na neuropsicologia via a fMRI. A cognição humana adulta é apoiada por sistemas de regiões cerebrais, ou módulos, que são funcionalmente coerentes em repouso e ativados coletivamente por requisitos de tarefas distintos. Várias redes fundamentais em estado de repouso foram descobertas pela junção desses campos, incluindo as redes somatossensoriais e redes de modo padrão. A elucidação das redes de estado de repouso envolvidas na atenção e cognição é talvez ainda mais relevante para a neuropsicologia. Isso inclui as redes de atenção dorsal e ventral; o primeiro envolvido no controle executivo da atenção, enquanto o último auxilia na detecção de pistas salientes. Além disso, a rede de controle frontoparietal e a rede cingulo-opercular parecem estar envolvidas em funções de ordem superior, como tomada de decisão e execução de tarefas direcionadas a objetivos, respectivamente (ROALF; GUR, 2017).
Consequentemente, as flutuações espontâneas na atividade cerebral aparentemente servem para organizar, coordenar e manter sistemas cerebrais funcionais e auxiliar no processamento de informações. Uma compreensão de como a formação desses módulos apoia a evolução das capacidades cognitivas pode ser alcançada aplicando métodos da teoria dos grafos, projetados para caracterizar padrões de conectividade. As regiões do cérebro são definidas como nós e as conexões entre elas como “bordas”. A teoria dos grafos pode usar qualquer medida que defina a força da conectividade entre os nós, como correlações de séries temporais de flutuações de sinal, para construir um modelo de conectividade geral e regional (ROALF; GUR, 2017).
Do mesmo modo, essa abordagem tem sido útil para medir a plasticidade dos sistemas cognitivos durante o treinamento cognitivo, estudando mudanças no desenvolvimento e relacionadas à idade nas redes neurais; e na diferenciação de indivíduos com distúrbios neurológicos e neuropsiquiátricos de indivíduos saudáveis (ROALF; GUR, 2017).
A melhoria no desempenho cognitivo é uma pedra angular da neuropsicologia e estudos recentes de rsfMRI, em que demonstraram que a experiência repetida com problemas de raciocínio altera a conectividade do cérebro. Especificamente, o treinamento durante um período de três meses alterou a conectividade funcional nos sistemas cerebrais frontoparietal e parietal-estriatal. Mais importante ainda, essas mudanças na conectividade do cérebro foram associadas a melhorias nos testes padronizados. Tal resultado sugere que as abordagens neuropsicológicas podem ter um impacto direto e significativo nos padrões cerebrais individualizados de rsfMRI (ROALF; GUR, 2017).
Num cérebro lesionado ou com disfunção em uma área específica requer a conjunção desses dois exames. No futuro, o profissional neuropsicólogo irá aplicar a sua bateria de testagem computadorizadas baseados na neurociência cognitiva moderna e validados com neuroimagem estrutural e funcional. Logo, esse neuropsicólogo clínico irá acompanhar a entrevista clínica e os exames com uma sessão de fMRI, supervisionada pelo neuropsicólogo, na qual uma bateria computadorizada de exames será administrada ao paciente no scanner. A leitura incluirá de forma mais rápida as informações sobre aberrações em parâmetros cerebrais e redes relacionadas a déficits comportamentais, que serão auxiliados por imagens e gráficos a serem interpretados pelo neuropsicólogo clínico (ROALF; GUR, 2017).
FONTE: ROALF, D. R.; GUR, R. C. Functional brain imaging in neuropsychology over the past 25 years. Neuropsychology, v. 31, n. 8, p. 954–971, nov. 2017.