Por Juno DeMelo

(texto adaptado)

Pelo New York Times


A discussão sobre os fatores emocionais no desencadeamento da dor crônica não é nova. Recentemente, o jornal New York Times discutiu o assunto, por meio da reportagem de Juno DeMelo. Ele conta a sua história na busca de um tratamento para uma dor crônica em dois momentos e entrelaça essa experiência com as discussões no universo científico sobre o tema.  

Ele inicia a discussão com o livro Free Yourself From Back Pain, um best-seller de 1991, que afirma que, para distrair um sofredor de ansiedade reprimida, raiva ou sentimentos de inferioridade, o cérebro cria dores no pescoço, ombros, costas e nádegas, diminuindo assim o fluxo sanguíneo para os músculos e nervos. O autor do livro, John Sarno, era um médico em reabilitação da Universidade de Nova York.

De acordo com Sarno, quase todas as dores crônicas são causadas por emoções reprimidas. E ao fazer psicoterapia ou escrever sobre essas dores, as pessoas seriam curadas sem medicação, cirurgia ou exercícios especiais.

Consequentemente, pela lógica metódica da teoria de Sarno, a dor emocional causa dor física. E, embora, a dor não se originasse de um andar peculiar ou de uma posição inadequada ao dormir, ela seria real. Entretanto, ninguém na comunidade médica pareceu concordar com Sarno, já que ele não tinha estudos para demonstrar os efeitos clínicos de seu programa. Contudo, não podiam também negar que funcionava para alguns de seus pacientes ou conhecedores de seu livro. Esses, depois de exorcizar num diário os seus sentimentos negativos, por um tempo, apareciam curados.

A DOR GERALMENTE COMEÇA NO CÉREBRO

"A ideia de que uma proporção substancial de pessoas pode ser ajudada repensando as causas de sua dor é agora prevalente", segundo Tor Wager, professor de neurociência no Dartmouth College e diretor de seu Laboratório de Neurociência Cognitiva e Afetiva. "Entretanto, isso é diferente da ideia de que seu relacionamento não resolvido com sua mãe se manifesta como dor." Desta forma, a maioria dos cientistas agora acreditam que a dor nem sempre é algo que começa no corpo e, seja percebida pelo cérebro. Assim, pode não ser uma doença em si, ou seja, de origem biológica.

Uma vez que, cerca de 85% das dores nas costas e 78% das dores de cabeça não têm um gatilho identificável, embora a maioria dos cientistas não afirmem que toda a dor crônica seja puramente psicológica. Já que existem também razões sociais e biológicas para a dor. Logo, para a maioria das pessoas, a dor é uma confluência dos três, conforme argumenta Daniel Clauw, professor de anestesiologia, medicina e psiquiatria da Universidade de Michigan e diretor de Centro para Dor Crônica e Pesquisa de Fadiga. Ademais, para Clauw, há muitas pessoas para as quais o método de Sarno não iria funcionar.

Atualmente, uma abordagem semelhante ao método de Sarno é a teoria da consciência e da expressão emocional, na qual os pacientes identificam e expressam as emoções que têm evitado. Essa teria não apenas demonstrou reduzir significativamente a dor em pessoas com fibromialgia e dor musculoesquelética crônica , como também é considerada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA como uma das melhores práticas para o tratamento da dor crônica (junto com massagem e terapia cognitivo-comportamental )

A DOR PODE TER VIDA PRÓPRIA

Contudo, como o cérebro causa dor crônica em primeiro lugar? A teoria de Sarno de que nosso cérebro usa a dor para nos distrair das emoções negativas, cortando o fluxo sanguíneo para os músculos, não é apoiada pela ciência, de acordo com Wager. Em vez do fluxo sanguíneo, os cientistas agora olham para o sistema nervoso para entender a dor crônica que não é causada por danos nos nervos ou tecidos. Basicamente, nesses casos, os circuitos cerebrais funcionam mal, prolongando, amplificando e até criando a dor.

SEIS DICAS PARA TRATAR A DOR CRÔNICA


1. Compreenda: para quem a experimenta cronicamente, a dor é sua própria doença, não apenas um sintoma. Os estudos indicam que pode ser causada pelo desequilíbrio das células nervosas especializadas.

2. O exercício físico ajuda: se você tem dor crônica, pode continuar se exercitando. E, em muitos casos, pode ajudar a  reduzir a sensação de desconforto e aumentar o limiar de dor.

3. Controle a dor desde a fonte: embora a dor crônica seja uma doença, você tem muito poder sobre ela e pode voltar para sua mente para começar a encontrar alívio. O que pode lhe ajudar? Mantenha um diário para expressar seus sentimentos.

4. Reformule seus pensamentos: os especialistas estão descobrindo que os psicólogos da dor podem ajudá-lo a mudar a maneira como o cérebro processa a dor .

5. Use uma linguagem descritiva útil: usar metáforas ou outras linguagens para falar sobre sua dor pode realmente mudar o quanto você sente . Por exemplo, falar abertamente do desconforto que sua dor lhe provoca pode ser mais benéfico do que usar palavras substitutas.

6. Encontre uma equipe: em um mundo ideal, os médicos saberiam como tratar doenças crônicas como a dor. No mundo real, você pode ter que procurar ativamente a equipe de atendimento para você.


Na prática, Wager diz que não entendemos totalmente os mecanismos disso, mas "sabemos que os estressores podem promover inflamação na medula espinhal e no cérebro, que estão ligados ao aumento das sensações de dor." As adversidades iniciais, como abuso infantil, dificuldades financeiras, violência e negligência, também foram associadas à dor crônica.

Além do mais, para complicar ainda mais as coisas: a dor pode gerar mais dor. Por exemplo, uma lesão pode aumentar o volume de sua resposta à dor a lesões futuras. O estresse pode fazer com que a dor se prolongue por muito tempo após a cicatrização da lesão. E se suas costas doem e você começa a imaginar todas as maneiras como isso poderia piorar, esse medo pode aumentar sua dor, o que pode levá-lo a evitar atividades físicas, tornando a dor ainda pior. Os especialistas chamam isso de ciclo da dor.

Nesse caso, a ideia de Sarno de que o cérebro provoca dor estava parcialmente correta. A pesquisa mostra que a catastrofização pode transformar a dor aguda em dor crônica e aumentar a atividade em áreas do cérebro relacionadas à antecipação e atenção à dor. Essa é uma das razões pelas quais os médicos estão começando a tratar os distúrbios dolorosos de maneira semelhante, por exemplo, aos distúrbios de ansiedade, incentivando os pacientes a se exercitarem para que possam superar o medo de se movimentarem. Enquanto um paciente com ansiedade social pode dar pequenos passos para falar com estranhos, por exemplo, um paciente com dor nas costas pode começar a correr ou andar de bicicleta.

VOCÊ PODE ENCONTRAR O INTERRUPTOR DE ELIMINAÇÃO

O resultado final, de acordo com Howard Schubiner, um aprendiz de Sarno, é que "toda dor é real e toda dor é gerada pelo cérebro". Schubiner é atualmente diretor do Programa de Medicina do Corpo Mente em Southfield, Michigan, e professor clínico da Faculdade de Medicina Humana da Universidade Estadual de Michigan.

Qualquer que seja, a dor desencadeada por estresse ou lesão física, o cérebro gera as sensações. E - este é um conceito incrível - você não apenas reflete o que sente, você decide se liga ou desliga a sua dor.

No final, Sarno acertou ao afirmar que os exercícios ajudam na recuperação quanto a relação entre a dor emocional e a física. Entretanto, errou por não considerar que nem toda dor crônica é psicológica. O tratamento Freudiano de Sarno está longe de ser o único que funciona. E, poucos cientistas diriam que nosso cérebro usa a dor para nos distrair das emoções negativas (e definitivamente jamais afirmariam algo do tipo como cortando o fluxo sanguíneo para os músculos).

Fontes da reportagem neste link