A obesidade não é uma falha pessoal, segundo um seleto grupo dos principais pesquisadores do mundo que estudam a obesidade, em reunião recentemente na Royal Society, a academia de ciências de Isaac Newton e Charles Darwin.


Na reunião de encerramento do encontro, algumas conclusões importantes filtradas por Belluz, J (2022):

1)Não há consenso algum sobre qual é a causa da obesidade. 

2)Preguiça, gula e descuido não foram referidos como atores da obesidade. Em total contraste com a visão social predominante da obesidade, que assume que as pessoas têm controle total sobre seu tamanho corporal, eles não culpam os indivíduos por sua condição, da mesma forma que não culpamos as pessoas que sofrem os efeitos da desnutrição, como atrofia.

3)A obesidade é uma condição crônica complexa, existem lacunas para entender por que os humanos, coletivamente, engordaram mais ao longo do último meio século.

4)Enquanto tratarmos a obesidade como uma questão de responsabilidade pessoal, é improvável que sua prevalência diminua.


Várias visões sobre o problema dos carboidratos:

1)Biólogo nutricional: os carboidratos e gorduras em nossa alimentação hoje diluem a proteína de que nosso corpo precisa, levando-nos a ingerir mais calorias para compensar a discrepância.

2)Endocrinologista: os padrões alimentares ricos em carboidratos promovem exclusivamente a gordura ao abordar a dieta com baixo teor de carboidratos.

3)Antropólogo evolucionário: argumentou que muitas sociedades de caçadores-coletores magros comiam muitos carboidratos, com uma afinidade especial pelo mel. 


Outras opiniões sobre os carboidratos: o problema são os alimentos ultraprocessados, e não os carboidratos em si, neste caso: 

4)Fisiologista: as pessoas comem mais calorias e ganham mais peso em dietas ultraprocessadas, em comparação com dietas de alimentos integrais, com a mesma composição de nutrientes. Mas ainda não está claro por que esses alimentos levam as pessoas a comer mais.

5)Bioquímico: O mistério pode ser explicado pelas milhares de substâncias tóxicas que os alimentos ultraprocessados podem carregar na forma de fertilizantes, inseticidas, plásticos e aditivos.

6)Etóloga: escassez de comida, consumo reduzido de calorias, levam passarinhos a ganhar mais peso. Estudos em humanos também encontraram uma associação “robusta” entre insegurança alimentar e obesidade. 


Além desses pontos, acredita-se que a obesidade surja devido a interações gene-ambiente ainda obscuras.


Conclusões: 

1)Existe uma profunda lacuna entre os argumentos dos palestrantes na reunião e as conversas de peso que acontecem em nossa cultura sobre a obesidade. 

2)Nenhum cientista falou sobre qualquer das supostas soluções que enchem os livros de dieta e as prateleiras das lojas, com exceção da discussão sobre carboidratos. 

3)Não houve diálogo sério sobre desintoxicação, aplicativos de dieta ou jejum intermitente. 

4)Ninguém sugeriu que os suplementos pudessem ajudar as pessoas a perder peso ou que o metabolismo precisasse ser estimulado. 

5)O único pesquisador sobre o microbioma intestinal argumentou que os testes em humanos sobre obesidade, até o momento, foram decepcionantes.


Além do mais, existe avanços importantes e eficazes na medicina no tratamento de pacientes com obesidade, como os medicamentos e cirurgias.  Entretanto, esses recursos não foram discutidos como soluções definitivas para a crise de saúde pública.


Logo, a obesidade deve ser tratada como um desafio social, e não pelo viés de escolha individual, que domina. 


Fonte: Belluz, B. Scientists Don’t Agree on What Causes Obesity, but They Know What Doesn’t - https://www.nytimes.com/2022/11/21/opinion/obesity-cause.html