DIAGNÓSTICO TARDIO DO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA - TEA EM MULHERES
A evidência de que mulheres e homens são diferentes é indiscutivelmente tão antiga quanto a vida humana, mas estudos básicos de pesquisa são realizados exclusivamente em animais machos e as mulheres são amplamente excluídas dos ensaios clínicos. Além do sexo, o gênero é ainda mais negligenciado como determinante da saúde humana (Marra et al., 2018).
Acrescenta-se que, sexo e gênero são termos usados de forma intercambiável, apesar de seus significados diferentes (Marra et al., 2018). Sexo, na pesquisa médica, refere-se a diferenças biológicas e fisiológicas entre mulheres e homens, com cromossomos sexuais (XX vs. XY) e hormônios gonadais contribuindo, principalmente, para essas diferenças no nível celular, órgão e sistemas. Já gênero refere-se a uma combinação de influências ambientais, sociais e culturais sobre os fatores biológicos em mulheres e homens. O gênero está enraizado na biologia e moldado pelo ambiente e pela experiência. Há evidências crescentes para apoiar que tanto o sexo quanto o gênero afetam a etiologia, a apresentação e os resultados do tratamento de muitas doenças (Koch-Gromus & Gromus, 2014; Marra et al., 2018; Nebel et al., 2018).
Por isso, sexo e gênero moldam nosso estado de saúde por meio de interação dinâmica: uma melhor integração de sexo e gênero na pesquisa e na abordagem clínica é obrigatória, pois leva a uma medicina personalizada e à igualdade nos cuidados de saúde (Marra et al., 2018). Logo, para maximizar o desenvolvimento de tratamentos e intervenções atuais e futuros em todo o espectro do autismo, as diferenças de sexo e gênero devem ser melhor compreendidas e medidas.
Em especial, o Transtorno do Espectro Autista - TEA muitas vezes não é reconhecido, especialmente na sua apresentação no nível leve em mulheres sem déficit de linguagem/intelectual.
Uma das hipóteses é que as mulheres camuflam mais os sintomas de TEA do que os homens, contribuindo potencialmente para a diferença na prevalência. Essa camuflagem pode ocorrer na forma de modificar a expressão social externa de alguém, como forçar-se a exibir expressões faciais e contato visual apropriados ou até mesmo representar um personagem ou papel para parecer mais típico ou suprimir comportamentos inapropriados e idiossincráticos. Além disso, a camuflagem foi positivamente correlacionada com a gravidade dos sintomas de humor em homens com TEA e com o funcionamento executivo em mulheres com TEA. Isso sugere que o mesmo fenômeno relacionado ao TEA, camuflado neste caso, pode se manifestar de maneira diferente em homens e mulheres, resultando em um potencial risco diferencial de psicopatologia. Aliás, o fenótipo apresentado por mulheres com TEA pode não refletir necessariamente como elas vivenciam o mundo (Schuck et al., 2019).
Do mesmo modo, em comparação com homens, as mulheres apresentam um atraso significativamente maior no encaminhamento para serviços de saúde mental e uma idade significativamente maior no diagnóstico de TEA. Por exemplo, as mulheres são menos propensas a serem diagnosticadas corretamente e mais propensas a serem diagnosticadas erroneamente na primeira avaliação do que os homens. As mulheres relatam pontuações significativamente mais altas do que os homens no domínio Hiper/Hiporreatividade à entrada sensorial, apenas entre os indivíduos que foram diagnosticados erroneamente (Gesi et al., 2021).
Em resumo, pesquisas crescentes apoiam a especificidade de gênero na apresentação dos sintomas do TEA. Acredita-se que fenótipos diferentes, comorbidades psiquiátricas e nível de "camuflagem" (estratégias comportamentais de enfrentamento para ocultar os sintomas para uso em situações sociais) contribuam ainda mais para a discrepância nas taxas de prevalência e erros de diagnóstico resultantes ou diagnóstico tardio em indivíduos do sexo feminino. Ambos os fatores nosológicos e culturais parecem estar contribuindo para diferenças no diagnóstico de TEA em mulheres. Essas diferenças na apresentação têm implicações importantes para o diagnóstico tardio, o tratamento do TEA e a qualidade de vida das mulheres com autismo (Green et al., 2019).
FONTES:
Gesi, C., Migliarese, G., Torriero, S., Capellazzi, M., Omboni, A. C., Cerveri, G., & Mencacci, C. (2021). Gender Differences in Misdiagnosis and Delayed Diagnosis among Adults with Autism Spectrum Disorder with No Language or Intellectual Disability. Brain Sciences, 11(7), 912. https://doi.org/10.3390/brainsci11070912
Green, R. M., Travers, A. M., Howe, Y., & McDougle, C. J. (2019). Women and Autism Spectrum Disorder: Diagnosis and Implications for Treatment of Adolescents and Adults. Current Psychiatry Reports, 21(4), 22. https://doi.org/10.1007/s11920-019-1006-3
Koch-Gromus, U., & Gromus, B. (2014). Gesundheit und Geschlecht. Bundesgesundheitsblatt - Gesundheitsforschung - Gesundheitsschutz, 57(9), 1019–1021. https://doi.org/10.1007/s00103-014-2024-2
Marra, A. M., Biskup, E., & Raparelli, V. (2018). The Internal Medicine and Assessment of Gender Differences in Europe (IMAGINE): The new European Federation of Internal Medicine initiative on sex and gender medicine. European Journal of Internal Medicine, 51, e30–e32. https://doi.org/10.1016/j.ejim.2018.02.003
Nebel, R. A., Aggarwal, N. T., Barnes, L. L., Gallagher, A., Goldstein, J. M., Kantarci, K., Mallampalli, M. P., Mormino, E. C., Scott, L., Yu, W. H., Maki, P. M., & Mielke, M. M. (2018). Understanding the impact of sex and gender in Alzheimer’s disease: A call to action. Alzheimer’s & Dementia, 14(9), 1171–1183. https://doi.org/10.1016/j.jalz.2018.04.008
Schuck, R. K., Flores, R. E., & Fung, L. K. (2019). Brief Report: Sex/Gender Differences in Symptomology and Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(6), 2597–2604. https://doi.org/10.1007/s10803-019-03998-y