Ser emocionalmente negligenciado pode ser uma experiência devastadora. Esse trauma não apenas pode afetar o senso de identidade do indivíduo, sua capacidade de confiar e construir relacionamentos saudáveis, mas também pode afetar as condições de saúde.

Quantas vezes nos deparamos com uma realidade dicotômica em que o desenvolvimento cognitivo, visto como apartado da emoção, recebe toda a atenção e os recursos necessários, enquanto o desenvolvimento emocional é negligenciado? É triste constatar que a sociedade muitas vezes prioriza o preparo das habilidades para o trabalho, mas esquece-se de oferecer suporte adequado para o crescimento emocional dos indivíduos.

A família, a escola e até mesmo os sistemas de proteção, como as leis e o Estado, estão direcionados ao cumprimento de metas voltadas para a formação de profissionais capacitados. No entanto, deixamos de lado a importância fundamental de promover um ambiente saudável para o desenvolvimento emocional. E é justamente na vida adulta que sentimos o impacto dessa discrepância, quando as exigências emocionais se tornam equânimes, apesar de termos sido preparados de forma desproporcional.

As consequências de curto prazo da negligência são alarmantes. Estudos revelam um aumento no risco de comportamentos de internalização e externalização, além de atrasos no desenvolvimento cognitivo não desacoplado do emocional. Quando uma criança percebe que está sendo negligenciada emocionalmente, ela tem duas vezes mais chances de desenvolver transtornos psiquiátricos aos 15 anos, incluindo o desenvolvimento de Depressão, Transtorno Bipolar, Ansiedade, Transtorno do Pânico, Fobias e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Adolescentes que tiveram suas emoções negligenciadas na infância são mais propensos a ter baixo desempenho acadêmico, abuso de substâncias, atividade sexual de risco e tentativas de suicídio. Esses dados nos fazem refletir profundamente sobre as consequências que a falta de atenção ao desenvolvimento emocional pode acarretar em nossas vidas e na sociedade como um todo.

É hora de mudarmos essa realidade! É fundamental que a educação e a saúde emocional sejam prioridades desde cedo, integradas ao currículo escolar e oferecidas nos mais diversos contextos sociais. É necessário criar espaços de acolhimento, nos quais as pessoas possam expressar seus sentimentos e aprender a lidar com eles de forma saudável.

Vamos lembrar que somos seres complexos, e que tanto o desenvolvimento cognitivo quanto o emocional são essenciais para uma vida funcional/adaptada e saudável. Precisamos reconhecer que cuidar das nossas emoções é tão importante quanto desenvolver habilidades profissionais.

É necessário que a família, a escola e toda a sociedade se unam nesse propósito. Os pais devem estar atentos às emoções de seus filhos, proporcionando um ambiente seguro e acolhedor para que eles possam expressar seus sentimentos sem medo de julgamento.

As escolas têm um papel fundamental nessa transformação. É imprescindível que incluam programas de educação emocional em seus currículos, proporcionando ferramentas e conhecimentos que ajudem os alunos a entenderem suas emoções, a lidarem com o estresse e a desenvolverem habilidades sociais.

Além disso, é importante que os sistemas de proteção, como os serviços de assistência social e de saúde, também estejam comprometidos em promover o desenvolvimento emocional. Devemos garantir que haja profissionais capacitados e recursos adequados disponíveis para auxiliar aqueles que estão enfrentando dificuldades emocionais.

Ao investirmos no desenvolvimento emocional, estamos investindo em pessoas mais resilientes, capazes de lidar com os desafios da vida de forma saudável e adaptadas as experiências dolorosas que os ciclos existenciais no impõem. Estamos construindo uma sociedade mais empática, onde a compreensão e o apoio mútuo são valorizados.

Não podemos mais negligenciar a importância do desenvolvimento emocional. Precisamos romper com a ideia de que apenas o intelecto é relevante e reconhecer que cuidar de nossas emoções é a base para uma vida plena e satisfatória.

Então, é primordial que tenhamos uma sociedade que valorize a integração entre o cognitivo e o emocional, reconhecendo que ambos são aspectos intrínsecos da nossa cognição e influenciam nossa forma de compreender o mundo e lidar com as situações desafiadoras e muitas delas inevitáveis no ciclo de uma existência.