DIAGNÓSTICO COMÓRBIDO ENTRE TEA E TDAH: DO QUE ESTAMOS FALANDO?
“Os déficits de atenção são fenótipos comportamentais chave de um número considerável de doenças neurológicas e genéticas caracterizadas por transtornos psiquiátricos complexos. Será que o erro reside em confundir tais déficits com os traços de atenção únicos e muito diferentes do autismo? Em outras palavras, as características de atenção dos transtornos são ignoradas através de uma generalização errônea?”
“As atenções observadas no TEA são intrínsecas a esse transtorno e não podem ser simplesmente atribuídas ao TDAH comórbido!”
Por Maria Ramim
Uma análise aprofundada do artigo
"ASD and ADHD Comorbidity: What Are We Talking About?" publicado em
2022 na Frontiers Psychiatry revela questões prementes no campo da saúde
mental: o diagnóstico duplo incorreto de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Este equívoco, embora
frequente, não considera as notáveis diferenças que existem entre esses dois
distúrbios clínicos.
É incontestável que há uma sobreposição de sintomas entre TEA e TDAH, incluindo até mesmo a disfunção sensorial, que, apesar de não ser o foco do artigo em questão quanto a argumentação, tem sido objeto de estudos independentes. No entanto, compartilhar alguns sintomas não justifica uma conclusão precipitada de diagnóstico duplo. Como o senso comum nos lembra, "nem tudo que tem bigode é gato", mas nem sempre isso se aplica a prática clínica, infelizmente.
Os estudos que indicam altas prevalências de comorbidade entre esses distúrbios podem, em parte, ser influenciados por um "preconceito" teórico pouco fundamentado, que abriga uma variedade de paradigmas experimentais que podem estar medindo diferentes fenômenos. De qualquer forma, o autismo e o TDAH têm características distintas e, também, sobrepostas em quatro domínios neurocognitivos: processamento de atenção, monitoramento de desempenho, processamento facial e processamento sensorial.
No entanto, é crucial destacar que as especificidades das atenções observadas no TEA são intrínsecas a esse transtorno e não podem ser simplesmente atribuídas ao TDAH comórbido. Por exemplo, no TEA, a atenção sustentada e seletiva é notavelmente mais intensa, assim como a busca visual, embora esta última reflita mais a qualidade do processamento perceptivo do que a atenção em si. Além disso, a capacidade de direcionar a atenção para estímulos sociais é deficiente em pacientes com TEA.
A atenção conjunta, uma habilidade social importante, também parece estar ausente em indivíduos com TEA, contribuindo para dificuldades na comunicação social. A disfunção amigdalar desempenha um papel fundamental na interação entre processamento sensorial e atenção no TEA, modulando como os eventos emocionais são percebidos. Portanto, entender os mecanismos neurais por trás das atenções é essencial para uma avaliação precisa.
Além disso, a hiper-reatividade sensorial, característica do TEA, está associada a uma atenção superseletiva e superfocada, comportamentos perseverantes e estereotipados, e excelentes capacidades de memória, mas também a déficits sociais significativos. Essa atenção excessiva, mas estereotipada, pode ser confundida com desatenção típica do TDAH.
A agitação psicomotora no TEA, por sua vez, parece relacionar-se a sistemas de excitação atípicos e à hiperatividade dopaminérgica, com efeitos diferentes dos observados no TDAH. Essas complexidades neurocognitivas desafiam a generalização simplista de diagnóstico duplo.
Ao abordar a atenção, o TDAH tende a refletir dificuldades em detectar pistas que permitiriam a antecipação, enquanto o TEA está mais diretamente relacionado a uma capacidade perceptiva elevada e orientação menos flexível para novos estímulos. A inibição prejudicada, característica fisiopatológica central do TDAH, não foi estudada em pacientes com TEA, indicando uma diferença fundamental entre os dois transtornos.
A motivação também desempenha um papel crucial na atenção conjunta no TEA, e a avaliação precoce desses processos pode ser vital para o diagnóstico diferencial.
Em resumo, embora o TEA e o TDAH compartilhem alguns sintomas, suas especificidades de atenção e as complexidades neurocognitivas que as acompanham não podem ser subestimadas. Portanto, o diagnóstico de comorbidade deve ser abordado com extrema cautela, levando em consideração uma análise abrangente do quadro clínico. A complexidade envolvida na diferenciação entre TEA e TDAH enfatiza a urgência de desenvolver instrumentos clínicos e eletrofisiológicos mais refinados, a fim de realizar avaliações neuropsicológicas mais precisas. Isso é essencial para evitar a prática de rotular tantos gatos simplesmente com base em seus bigodes.
Em vez de uma abordagem simplista, devemos adotar uma visão mais ampla e crítica, considerando os múltiplos aspectos que diferenciam esses transtornos e explorando as nuances que a pesquisa científica continua a revelar. Afinal, não podemos permitir que a sobreposição de sintomas obscureça a singularidade e a complexidade dessas condições.
Fonte: Hours C, Recasens C, Baleyte JM. ASD and
ADHD Comorbidity: What Are We Talking About? Front Psychiatry. 2022 Feb
28;13:837424. doi: 10.3389/fpsyt.2022.837424. PMID: 35295773; PMCID: PMC8918663