Hoje, desejo compartilhar com todos vocês duas ponderações, inspiradas em duas dimensões estruturantes da linguagem. A linguagem, meu caro público, é mais que um mero instrumento de comunicação, ela é um alicerce terapêutico, uma essência revitalizante e uma carruagem para a expansão de nossa percepção.

Por exemplo, ao imergir na eloquência do monólogo de Riobaldo em "Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa, somos remetidos à profunda capacidade da linguagem em arquitetar a harmonia afetiva. Riobaldo, nosso protagonista, apesar de seus próprios abismos e monstros interiores ao dar voz a suas vivências e sentimentos vai decifrando-se e reconciliando-se com o seu mundo intrínseco.

Essa revelação sublinha que, por vezes, o simples ato de externalizar nossos temores, traumas e angústias pode ser uma terapia em si. A linguagem nos concede o poder de dar forma a nossas experiências, compreendê-las por meio do processo linguístico e encontrar resoluções como um feedback mental, em que a realidade se refaz em imagens mentais. Ela, a palavra, é a própria argamassa que cimenta nossa reconciliação com o eu.

A linguagem transcende sua utilidade de modelagem emocional, transformando-se em um portal de ampliação da percepção. Equipara-se, em certo sentido, a um alucinógeno mental, possibilitando uma imersão profunda em múltiplas camadas de significado e compreensão. A literatura, vasta em exemplos dessas influências, conduz-nos por viagens transcendentais. Cada parágrafo lido por nossos olhos nos altera irremediavelmente. A literatura é apenas um exemplo, pois o mesmo ocorre em nossas interações verbais com variados interlocutores.

Nossos canais perceptivos se desdobram, acolhendo novas ideias, perspectivas e um vasto leque de emoções. A linguagem, seja por meio de nossas interações sociais ou pela arte, como a literatura, nos desafia a explorar as complexidades da condição humana e enxergar o mundo sob prismas diferentes. A expansão da percepção proporcionada pela linguagem é uma dádiva a todos nós, independentemente de nossa ocupação ou área de atuação, podemos nos render e usufruir.

Portanto, a palavra é o escudo que nos protege e a ponte que nos leva ao vasto território das experiências humanas.