O curta-metragem indicado ao Oscar "E depois?" nos leva a uma reflexão profunda sobre as tragédias que permeiam nossas vidas, sejam elas pequenas ou grandes, e que moldam nossa existência e nossa capacidade de resistir diante de dores que parecem transcender a própria condição humana. A perda de um filho, uma dor devastadora em qualquer circunstância, se torna ainda mais incompreensível quando acontece em meio à violência, especialmente quando acompanhada de uma perda dupla, como a de sua mulher. O filme aborda esse tema com uma sensibilidade comovente, ecoando as palavras de Rosa Monteiro em seu livro "A ridícula ideia de nunca mais te ver", onde ela explora como os momentos de nascimento e morte nos possibilitam transcender o tempo cotidiano e vislumbrar uma verdade profunda e imutável.

A vivência do luto é descrita no livro como indescritível, uma dor que nos retira a capacidade de expressar o que sentimos, conforme a autora tão bem descreve em seu livro, e que é ecoada doloridamente no filme ao retratar o personagem após sua terrível perda, em um estado de silêncio, absorvendo e testemunhando as dores dos outros. Algumas dessas dores podem parecer triviais em comparação com a sua própria, mas talvez sirvam, também, como um preparo a esses distraídos ignorantes para a experiência terrível que possam viver em algum dia. No entanto, esses momentos de dores triviais e dilacerantes nos lembram da importância de priorizar o que realmente importa em meio às distrações cotidianas tão ridículas.

Rosa Monteiro, explora em seu livro algo muito presente no curta “E depois?” a ideia do "nunca mais" é uma das mais difíceis de aceitar durante o processo de luto. É como se o cérebro se recusasse a compreender a ideia de que alguém que ocupava tanto espaço em nossas vidas tenha desaparecido para sempre. O conceito de "sempre" parece quase alienígena para nossa compreensão limitada do tempo e da existência. No entanto, é através da linguagem que encontramos uma maneira de começar a reconstruir nossas vidas, dando sentido à nossa experiência e encontrando um novo propósito ou sentido para seguir em frente. O final do curta, aquele choro explosivo do personagem, é uma forma de recomeçar dele, entrelaçado com a dor da menina em seus silêncios. E a música explodindo com ele seguindo em frente.

Como Marie Curie tão perceptivamente observou, quando algo como o que aconteceu com o personagem do curta, com ela própria e com a autora do livro, Rosa Monteiro, morremos juntos com essa perda. Uma ruptura ocorre em nosso ser, pois o eu anterior se desvanece e somos compelidos a renascer com um novo propósito ou sentido de vida, algo que ainda pulsa dentro de nós e nos impulsiona a nos reconstruir. É nesse momento que a linguagem se torna nossa aliada vital, como sempre! Por meio da expressão e da comunicação verbal, iniciamos um processo lento de reconstrução, mesmo diante de uma dor que pode parecer sobre-humana aos olhos dos outros. Nesse processo, há um aspecto universal: a linguagem se mostra como uma ferramenta essencial para encontrar significado em meio à dor e ao caos que nos cercam, permitindo-nos reconstruir-nos novamente.

PS.: Dentro dessa temática vale muito assistir a série "Expatriadas" na Prime Video.